Os profetas partem, restam os professores

Os profetas partem, restam os professores

A morte do Papa Francisco — figura que deslocou dogmas para humanizar a fé, transformou púlpitos em pontes — nos lembra que os verdadeiros profetas não são imortais. Sua partida nos interpela: quem sustentará o diálogo entre ética e caos, entre humanidade e desespero? A resposta está nas salas de aula, onde professores, muitas vezes invisíveis, carregam a tocha de um futuro que o presente insiste em sabotar.

A educação não é refúgio, é trincheira. Enquanto governos a reduzem a discursos técnicos e rankings de eficiência, professores resistem ensinando que números não medem sonhos, planilhas não capturam perguntas e algoritmos não substituem o contato que acolhe, desafia, transforma. Num mundo onde a barbárie se disfarça de progresso, a escola permanece como último laboratório de humanidade possível: lugar onde a dúvida é sagrada, a curiosidade, revolucionária, e a empatia, matéria obrigatória.

Ensinar é subversão. É desmontar, em meio a reels e discursos de ódio, a lógica do descartável. É mostrar que a ciência não se curva a negacionismos e que a história — quando não apagada — nos coloca a não repetir tragédias. O prof. que insiste em discutir Machado de Assis em vez do coaching da moda e que prefere debater ‘fome’ a aulas de ‘empreendedorismo para pobres’, está plantando flores no asfalto rachado do capital. É na sala de aula que os oprimidos aprendem a nomear o mundo — e, ao nomeá-lo, descobrem que ele pode ser desmontado.

Ensinar nesse sentido é recusar a letargia dos currículos que domesticam, é desobedecer à tirania dos algoritmos que isolam, é desenterrar, no meio do caos, a pergunta que ninguém quer ouvir: ‘Que mundo estamos legando — e que legado nos calamos a entregar?’. Quem ousa perguntar, não repete lições: arranha presente até sangrar futuro.

Se o papa foi farol para a humanidade ferida, os professores são os alicerces do Brasil que insiste em respirar. Enquanto o pontífice ouvia os gritos de Gaza, eles decifram o silêncio das crianças em salas esquecidas. Se ele desafiou guerras, eles combatem a ignorância diariamente. Dois lados de um mesmo pacto: um no altar do mundo, outros no chão da escola.

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