Saúde mental como direito – parte II

A crise na saúde mental docente não é um incidente, mas um sintoma de um sistema educacional estruturado sobre a negligência. Pierre Bourdieu, em sua teoria da *violência simbólica* já alertava sobre mecanismos de dominação que naturalizam o sofrimento dos grupos marginalizados. No caso dos professores, essa violência se materializa na precarização das condições de trabalho, na culpabilização seletiva pelo fracasso sistêmico e na romantização do "sacrifício" como virtude profissional.
Quando Christophe Dejours – pioneiro da *psicopatologia do trabalho* – analisa o adoecimento psíquico em profissões intensivas em relações humanas, ele fala que a organização do trabalho é a responsável pelas consequências penosas ou favoráveis para o funcionamento psíquico do trabalhador. Para elucidar, Dejours enfatiza: a falta de reconhecimento e a impossibilidade de dar sentido ao trabalho são os verdadeiros combustíveis para a exaustão existencial.
Então penso: não por acaso, o Brasil enfrenta uma epidemia de burnout entre educadores (com dados alarmantes!). Segundo a CNTE, 75% dos professores da educação básica pública relatam níveis críticos de estresse; enquanto 48% já foram diagnosticados com ansiedade ou depressão (Pesquisa Nacional de Saúde do Educador, 2022). O Observatório da Saúde do Professor aponta que 60% dos afastamentos por saúde entre docentes estão ligados a transtornos mentais, com destaque para síndrome do pânico e esgotamento profissional. Em comparação, dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelam que professores brasileiros estão entre os mais estressados do mundo: 83% afirmam trabalhar em ambientes fisicamente e emocionalmente desgastantes (TALIS, 2018).
Sabemos que essa realidade não é inevitável, mas fruto de escolhas políticas. Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia defendia que ensinar exige “consciência do inacabado”, mas também condições materiais para que a práxis educativa não se torne uma tortura. O subfinanciamento crônico da educação pública — com estados e municípios ignorando o piso salarial em 76% das redes, segundo o INEP, 2023 — aprofunda a desesperança.
[...]
Cursos, palestras e mentorias para a sua escola
Deixe seu contato para receber novidades da Via Mestra e conversar sobre formação de professores e gestores.

Comentários
Seja a primeira pessoa a comentar.