O roubo do recesso escolar e a ditadura do calendário
Imagino que você tenha chegado até aqui arrastando o próprio cansaço e carregando a sensação pesada de que o 1º semestre sequer terminou. Entendo a sua dor e conheço de perto as trincheiras e a realidade do chão da escola, por isso quero começar a nossa reflexão desta segunda te entregando a minha mais profunda solidariedade pelo encurtamento do recesso de julho pela implacável ditadura do calendário letivo.
O roubo desse nosso descanso não representa um mero ajuste burocrático inofensivo, na verdade é um projeto de adoecimento onde o esvaziamento do recesso deixou de ser uma impressão para se tornar a regra oficial nos calendários escolares. A justificativa governamental embasada no cumprimento rigoroso de dias letivos esconde um problema muito mais profundo, evidenciando que a nossa sociedade simplesmente não permite pausas e que o Estado está legalizando esse absurdo de forma cruel.
Quando as redes de ensino reduzem o descanso de professores e alunos para 10, 12 ou 16 dias, passamos a testemunhar a educação cedendo à pressão de um sistema que exige produção ininterrupta. Como o mercado de trabalho não acolhe as famílias e impõe jornadas exaustivas aos responsáveis, a conta sobra inteiramente para a escola, que passa a ser tratada como um espaço de retenção e um verdadeiro depósito humano para que a engrenagem do capitalismo continue girando.
O custo invisível e devastador dessa dinâmica recai sobre nós, professores, que sabemos exatamente que o recesso do meio do ano constitui uma questão básica de sobrevivência. Com poucos dias de pausa o corpo do educador mal entende que parou e já é forçado a voltar para a sobrecarga das salas de aula, enquanto para os alunos o cenário representa a brutal negação do direito ao ócio que é fundamental para o pleno desenvolvimento cognitivo e emocional.
Eu defendo o direito à pausa integral como um dos principais caminhos possíveis para frear essa engrenagem adoecedora e resgatar a dignidade e a saúde da nossa profissão. Precisamos lembrar que há um custo para essa falta de descanso, pois, professor exausto não ensina e aluno cansado não aprende.
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