Ano letivo/2025 em análise (parte IV): a burocratização da alma e o silenciamento do mestre

Ano letivo/2025 em análise (parte IV): a burocratização da alma e o silenciamento do mestre

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Caminhamos para o penúltimo post de 2025 e precisamos tocar numa ferida que sangrou o ano todo: a transformação do professor em um burocrata do próprio sofrimento.

Se nas semanas anteriores falamos do corpo exausto e da sociedade líquida, hoje olhamos para a ‘gaiola de ferro’ da qual falava Max Weber, que na escola pública de 2025 ganhou contornos digitais. Passamos o ano lutando contra sistemas que travam, diários online que não dialogam com a realidade e uma exigência insana de ‘produzir evidências’. A lógica gerencial invadiu a pedagogia: não basta dar aula, é preciso fotografar, relatar, tabular e provar.

Nesse processo, fomos roubados do nosso bem mais precioso: o tempo da relação. O filósofo Walter Benjamin alertava sobre a ‘perda da aura’ na arte, e na educação vivemos a perda da aura do encontro. Quantas vezes, neste ano letivo, deixamos de ouvir uma angústia de um aluno no corredor porque precisávamos correr para preencher um prazo no sistema? A burocracia estatal nos tornou reféns de dados frios que ignoram a temperatura humana da sala de aula.

O professor, que deveria ser o intelectual transformador, foi empurrado para a função de técnico preenchedor de planilhas. E isso dói porque sabemos que educação se faz no olho no olho, na mediação do conflito e na troca que significa. Mas o sistema, pelas mãos do estado, quer números, índices, aprovação automática maquiada de fluxo escolar.

Ao longo de 2025 resistimos à brutal tentativa de mecanização da nossa essência. Mantivemo-nos humanos frente às telas frias, mas não sem pagar um alto custo em nossa saúde mental. A vivência do que chamamos de trabalho vazio (aquele que cumpre tabela, mas não preenche a alma) tem sido o vetor do nosso adoecimento e do apagamento do nosso propósito.

Que nesta reta final possamos nos acolher e nos perdoar por todas as vezes em que fomos vencidos pela máquina burocrática. Que fique a certeza de que a nossa verdadeira 'evidência' é imensurável e jamais caberá nos limites de uma planilha; ela caminha viva pelo mundo, inscrita nas histórias e nas vidas que afetamos.
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