A escola carrega um peso que não é seu

A escola carrega um peso que não é seu

Uma crise silenciosa atravessa os muros das escolas e se instala nos corredores, nas salas de aula e no cotidiano sobrecarregado dos professores. A crise não é de autoria do sistema educacional; ele é, antes, o receptáculo final de falhas que se originam em esferas muito mais amplas. A escola tornou-se o palco onde se desenrolam os atos finais de um drama social, cujos primeiros capítulos foram escritos pela negligência familiar e pelo abandono estatal.

Diante disso, uma questão precisa ser dita e debatida: se a família continuar ausente na educação e na vida escolar de suas crianças e adolescentes, e o estado não reverter o quadro de precarização da educação básica pública, a escola continuará como ‘peixe no tapete’, como costumo dizer, que basicamente é sobrevivendo em um cenário colapsado, tentando lidar com problemas que não criou.

A ausência familiar aqui não se refere apenas à carência física, mas a uma lacuna formativa profunda. São crianças que chegam à escola sem o repertório básico da convivência e da comunicação social, sem resiliência emocional e sem os limites essenciais que estruturam um indivíduo. O professor, então, é forçado a desempenhar o papel de pai, mãe, psicólogo e assistente social, antes mesmo de poder exercer sua função primordial de mediador do conhecimento.

Paralelamente, o Estado responde com a precarização sistêmica que estamos todos cansados de saber: salários baixos, infraestrutura decadente, turmas superlotadas e a terceirização constante de responsabilidades. Enquanto isso, a sociedade civil, de modo geral, mantém-se em um cômodo silêncio, tratando a educação como um problema setorial e não como a base de todo o projeto de nação.

O resultado dessa dinâmica irresponsável é uma instituição escolar permanentemente refém de suas próprias contingências, pois, em vez de avançar e focar no desenvolvimento humano, a escola gasta energia tentando lidar com problemas que não criou e estabilizar um terreno que constantemente se desfaz. Assim, ela é reduzida à condição de última trincheira ética, tentando compensar, com recursos mínimos, o colapso de pilares fundamentais que lhe são externos.
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