Escola pública x privada: a geografia do abismo (parte III)

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Hoje apresento o segundo eixo da discussão: violência e vulnerabilidade social. Pois, se tem uma dor que diferencia qualitativamente o calvário docente, é a vulnerabilidade social dos alunos. Ela transforma radicalmente o ofício docente na escola pública, impondo realidades dramáticas que exigem funções que vão muito além da docência. A violência e a vulnerabilidade social representam o peso do contexto educacional.
Não estou dizendo que na escola particular não haja conflito ou crise nas famílias dos alunos, pelo contrário, ambas as redes lidam com o enfraquecimento do vínculo família-escola. Acontece que na pública, muitas vezes é pela sobrevivência: pais trabalhando múltiplas jornadas, famílias desestruturadas pela violência e pobreza extrema. Na privada, frequentemente é pela terceirização da educação: pais ausentes que delegam à escola a formação integral e cobram resultados como se a escola operasse milagres.
O professor da periferia não lida apenas com o ensino ou com a indisciplina comum em alunos, ele é linha de frente de guerras sociais não declaradas. Estudos de Miriam Abramovay e do Relatório da Violência nas Escolas são contundentes: escolas de regiões vulneráveis vivem exposição direta a violência urbana, tráfico e confrontos policiais. Alunos e famílias são marcados pela fome crônica, pela violência doméstica, pelo desemprego estrutural, pela falta de perspectiva e de esperança.
Esses estudos de Abramovay não descrevem casos isolados, mas fotografam o genocídio cotidiano da infância periférica. Enquanto o aluno da elite tem aula de robótica, o da escola pública convive com: fome (15% sem comida diária, IBGE), balas perdidas (78% dos professores ouvem tiros, FLACSO), e a psicose de ser alvo de facções (47% dos docentes agredidos, Observatório).
Segundo o Sindicato dos Professores do Estado de SP (APEOESP, 2023), 85% dos professores de escolas periféricas já se sentiram ameaçados de morte no exercício da profissão. As agressões mais comuns vêm com ameaças ligadas ao crime, após aplicar alguma punição a aluno: “Você sabe com quem está falando?” ou “Tá marcada, professora”.
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