Escola pública x privada: a geografia do abismo (parte IV)

Escola pública x privada: a geografia do abismo (parte IV)

ESCOLA PÚBLICA X PRIVADA: A GEOGRAFIA DO ABISMO (Parte IV)
Hoje falo como o sistema aperta escola pública e particular pelas semelhanças perversas: cobranças sobre professores, relações de poder e burocracias.

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Comparar a realidade do professor de escola privada de classe média alta com outro de escola pública na periferia de uma grande cidade não é comparar dificuldades, é comparar universos. O 1º enfrenta os desafios da profissão num contexto de recursos e, frequentemente, alunos com maior capital cultural. O 2º está imerso num cenário de guerra social, atuando como único agente do Estado presente em territórios abandonados, tentando educar sob o peso da fome e da ausência de futuro.

E apesar dessas nuances e das realidades distintas, as semelhanças entre professores existem e estão enviesadas nas condições do trabalho docente, nas relações e no desgaste mental. Pois, a precarização paira sobre todos os professores, embora com intensidade e características distintas, como coloco a seguir.

1. Desvalorização profissional: A narrativa social que desqualifica o professor, que questiona sua autoridade, que paga mal e cobra o impossível, atravessa ambas as redes. É um projeto de desmonte. Nas mãos e na visão de pais, gestores e estado, o professor vira alvo e bucha de canhão. Além do fardo de salvar o mundo, o professor é o grande responsável pelo fracasso escolar.
2. Formação deficiente e continuada insuficiente: A formação inicial, por vezes desconectada da realidade da sala de aula e a formação continuada superficial ou inexistente são problemas crônicos nas duas redes. O professor é lançado ao front sem treino adequado, sem prática, que segundo Nóvoa, “há um excesso de discursos, redundantes, repetitivos, que se traduz em uma pobreza de práticas”.
3. Desgaste psíquico e burnout: A profissão docente está no topo das estatísticas de adoecimento mental. Pressão, cobranças, conflitos, jornadas exaustivas levam ao esgotamento profundo em ambas as redes. O que varia é o tipo e a intensidade do estressor: na pública, o peso da violência estrutural e da miséria; na privada, a pressão do mercado e do cliente.

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