Do assédio ao óbito: o motor da máquina de moer professores - parte I

Do assédio ao óbito: o motor da máquina de moer professores - parte I

A realidade do professor da escola pública transcende o desafio pedagógico; é uma batalha diária contra um ecossistema tóxico, urdido por políticas públicas equivocadas, gestões autoritárias e uma profunda desvalorização. No cerne deste martírio estão as metas abusivas e desconectadas da realidade escolar. Impostas verticalmente por secretarias de educação alheias ao chão da sala de aula, transformam o processo educativo em uma linha de produção quantificável. Aprendizagem é reduzida a índices, taxas de aprovação e resultados em testes padronizados, ignorando as complexidades sociais, afetivas e cognitivas dos alunos. O professor, espremido entre a necessidade de cumprir tais metas e o desejo de educar integralmente, vê-se dilacerado. A cobrança excessiva é a sombra constante: cobram resultados impossíveis, infinitos formulários, justificativas injustificáveis para gestores distantes.

Essa pressão encontra terreno fértil no assédio moral institucionalizado. Gestores escolares, muitas vezes também pressionados por metas absurdas ou movidos por uma lógica perversa de poder, transformam-se em agentes de humilhação e coerção. Professores são publicamente repreendidos, desautorizados, sobrecarregados com tarefas alheias à docência e ameaçados velada ou explicitamente. A falta de autonomia pedagógica é o corolário deste despotismo. Planos de aula engessados, metodologias impostas sem diálogo, proibição de adaptações criativas às necessidades da turma; o profissional é tratado como um executor passivo, um mero repassador de conteúdos pré-fabricados.

A recente tragédia que vitimou a professora Silvaneide de Oliveira, em Curitiba, é um grito de alerta ensurdecedor contra esse sistema doente. Relatos dão conta de um ambiente de trabalho marcado por intensa pressão, assédio e desrespeito por parte da gestão escolar. Sua morte, em circunstâncias desoladoras, fortemente associada ao sofrimento psíquico desse contexto laboral insustentável, não é um caso isolado. É a ponta do iceberg de um adoecimento coletivo, o resultado extremo de um cotidiano que mina a dignidade e a saúde mental dos educadores [...]

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