Quando um professor morre na escola, não é acidente ocupacional. É crime social!

Quando um professor morre na escola, não é acidente ocupacional. É crime social!

Na manhã de sexta-feira, 30 de maio, aos 56 anos, a professora Silvaneide Monteiro Andrade, de Língua Portuguesa, morreu. Não em um hospital. Não em sua casa ou perto dos seus entes queridos. Ela morreu dentro da sala da coordenação pedagógica do Colégio Estadual Cívico-Militar Jayme Canet, no Xaxim, Curitiba. Que soco no estômago!

Passei o fim de semana pensando na Silvaneide e conjecturando os seus últimos pensamentos e sentimentos, naquela fração de instantes que passou em reunião com a equipe pedagógica. Pensei no tamanho da sua angústia em ter que apresentar resultados irracionais; na aflição diante dos olhares “cobradógicos”; no tremor das palavras respondidas sob pressão; no medo de não conseguir prosseguir com as exigências do estado; na raiva daquele sistema injusto; no custo psicológico dos boletos; no desejo de se aposentar, de desaparecer dali e a docência ser apenas uma lembrança... Será que ela percebeu que partiria ali? Pensou na família, nos alunos, sentiu dores, pediu desculpas, prometeu melhorar, desejou partir, falou com Deus? Pode ter sido tudo isso, pode ter sido menos ou até mais. Mas acredito que, antes que seu coração parasse, certamente ele já havia se partido inúmeras vezes no exercício frustrante da docência, sobretudo, nessa escola que lhe devia acolhimento e proteção.

Entendo que a sua morte é a metástase visível de um sistema que consome educadores em nome de eficiências fictícias. Gestores de gabinetes alheios à sala real exigem "inovação pedagógica" com receitas, pacotes e plataformas: gamificação, aulas-show, tecnologias mirabolantes, metas, Ideb. Ignoram vandalismo, carteiras quebradas, salas superlotadas, calor insuportável, famílias ausentes, alunos despedaçados. Culpabilizam o docente pelo fracasso de um projeto que nega condições mínimas de dignidade.

O fracasso jamais deveria recair sobre quem, já carrega nas costas, o sistema inteiro. Logo, quando um professor morre na escola, a sua morte não é um acidente ocupacional. É um crime social. É o sintoma terminal de um sistema que pressiona, atormenta e esgota docentes física e emocionalmente.

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