O mito do “recomeço”

O mito do “recomeço”

Embora o Carnaval marque um recomeço simbólico no imaginário brasileiro, as escolas públicas revelam que muitos desafios não tiram folga: falta de infraestrutura, evasão e ausência da família são problemas que não seguem o calendário da festa. Enquanto o país 'reinicia' após a folia, essas questões continuam em looping, exigindo ações que vão muito além do ritmo do samba.

Paulo Freire já alertava que a educação não pode ser um ato de "espera passiva", mas muitos professores vivem essa realidade: planejam aulas sem recursos básicos (como livros ou internet), enfrentam salas superlotadas, sem climatização e lidam com a falta de reconhecimento, de tempo e de dinheiro. E mesmo com a sobrecarga de um trabalho invisível e desrespeitado, ainda tentam criar vínculos para reter alunos e aplacar a reprodução dos ciclos de desigualdade.

Enquanto isso, gestores navegam em burocracias que desviam o foco do pedagógico, como a luta por verbas para consertar telhados ou comprar merenda. Poucos sabem (ou reconhecem) o quanto se desdobram na busca por parcerias com assistentes sociais, mas esbarram na falta de políticas públicas integradas e de apoio comunitário.

A falta de envolvimento da família na vida escolar é frequentemente atribuída à falta de interesse, mas sabemos que as razões são mais complexas e que estão ligadas às condições sociais e materiais: mulheres criando filhos sem apoio afetivo e financeiro dos pais; mães e pais trabalhando em jornadas exaustivas sem tempo e energia para reuniões escolares – fora que muitos internalizam a crença de que a escola é dever só do Estado. A escola, por sua vez, não consegue estabelecer diálogos efetivos, perpetuando um abismo cultural que reforça a desconfiança mútua e a culpabilidade.

Enquanto o Carnaval celebra a resistência cultural, a escola pública revela a resistência diária de quem a sustenta: professores tentando apartar ofício de maternagem, gestores que viram "faz-tudo" e alunos desinteressados – e alguns que persistem, apesar de tudo. A mudança não virá de "recomeços" simbólicos, mas de ações contínuas que confrontem a desigualdade e reconheçam a educação como direito, não como promessa adiada.

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