Black friday e as coisas do coração

Black friday e as coisas do coração

Na última sexta cheguei de viagem e caí na bobeira de ir ao supermercado. Desde entrar no estacionamento até conseguir um carrinho de compras, ufa, que sufoco! As pessoas falavam alto e conversavam ao celular mostrando promoções. Além dos pacotes de produtos pelo chão e dos funcionários pra lá e pra cá, as filas nos caixas atravessavam os corredores.

Entrei, e mesmo tendo conseguido um carrinho, não consegui chegar na área de hortifruti. Lembro de avistar tomates e batatas que precisava levar pra casa, mas sem chance de alcançá-los. Em poucos minutos e sem poder andar dois corredores, eu já tinha sentido pontadas de dores na cabeça e uma acentuada irritação social, dessas bem comuns a quem lida com público, comércio e escola.

Enquanto abandonava o supermercado, ia pensando: Por que as pessoas têm que falar tão alto? Por que só os hiper processados estavam com os preços baixos? Por que têm 30 caixas e só 09 funcionando? Por que os corredores são tão estreitos? Por que não fracionam os dias promocionais ao invés desse caos dum dia? Por que eu tenho que gostar de comida de verdade e não de miojo?

Saí de lá aturdida e fui a outro, aparentemente mais vazio. Mas estava igual, ele só era maior. E antes de ter enxaqueca ou falir a sanidade, abandonei a ideia das compras. Exausta da semana e da estrada pensei em voltar no sábado, sem a muvuca da black friday. Eu precisava de dignidade e ainda tinha muito trem pra fazer até a meia-noite.

Fiz unha, atendi uma paciente e visitei minha mãe. A noite caiu, ainda não havia chegado em casa e então passei numa casa de vinho para salvar o meu ‘sextou’. Lá encontrei uma colega e pincelamos brevemente sobre psicanálise e existencialismo. Engraçado que ela estava de saída, com o cachorro no colo e uma cerveja artesanal. Sorrimos, abraçamos e desejamos ‘sextou’ de descanso, mas na hora do tchau caímos na prosa a partir de questões demasiadamente humanas. A gente sempre fala de escola, estresse laboral, salário ruim e aluno. Por que nunca falamos de coração partido, dos amores impossíveis e das relações falidas? Que que há que parece que professor é um ser alheio à vida amorosa? O pulso pulsa.

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