Professor, falar pode te curar!

Professor, falar pode te curar!

Tentei me desligar no recesso, mas não tive sucesso. As redes sociais sequestram o tempo de quem produz conteúdo, principalmente quem tem preocupações com a qualidade. Pois, todo dia tem mensagem, elogio, agradecimento, crítica, hater, gente querendo falar, ser ouvida e atendida. E mesmo entendendo que ensinar é da ordem do impossível, como bem aprendi com Freud, e que não posso atender a demanda de todos, pois são muitas e ainda tenho uma vida pra cuidar, eu tento responder todo mundo.

Um professor deixou de seguir a página porque o assunto era só sobre a docência: “com tanta coisa pra falar da escola, vai falar de como ser professor é horrível? É horrível, mesmo!” – disse. Um outro teve o “cuidado” de avisar do pessimismo dos textos, apesar de “absolutamente verdadeiros e emocionantes”. Outros saem chateados com discussões entre os próprios seguidores, que, apesar de serem pares profissionais, não pensam politicamente iguais.

Essas homilias parecem distintas, mas, não são. Apesar das pessoas estarem profundamente insatisfeitas com as suas carreiras profissionais (e com suas investidas pessoais), elas não querem refletir, falar ou fazer qualquer elaboração que as impliquem nesse lugar. Estão esgotadas com o peso do ambiente escolar, com as canetadas políticas, as premissas de seus gestores, os descasos de seus alunos e com os “desapoios” dos pais.

Não estou dizendo que a autocrítica contínua ou que uma metacognição ativa sejam movimentos fáceis de serem feitos. Mas, indiscutivelmente deveriam ser costumeiros. A reflexão sobre si e sobre o outro é um lugar espinhoso, mas não dá para atravessar o deserto docente com miragem em cada tempestade escolar, sem que problematizemos suas estruturas, sem fazer autoanálise e a buscar saídas que possibilitem uma vida menos infeliz.

Nós precisamos abrir o jogo e falar mais abertamente sobre a nossa insatisfação na carreira e a terrível sensação de que nunca iremos conquistar grandes vitórias profissionais e pessoais. A psicanálise, como orientação clínica que busco trabalhar, aponta a fala como forma de cura dos sintomas. Precisamos perder, não o medo, mas, o pudor de falar das angústias.

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