Pés no chão, o ano começou!

Pés no chão, o ano começou!

Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro é um "narciso às avessas, que cospe na própria imagem", mas que, no Carnaval, acredita piamente na redenção pelo confete. Diz a lenda que o Brasil só destrava as engrenagens depois que as cinzas se assentam. Hoje, 23 de fevereiro, o país finalmente ‘começa’. Mas para nós, educadores, essa afirmação carrega uma ironia pedagógica quase sintomática: sabemos que o trabalho subjetivo, o planejamento e o peso das expectativas escolares já estavam em curso muito antes do primeiro samba. Esse hiato operou como uma denegação, uma tentativa de suspender temporariamente a percepção do real que nos convoca.

Agora, o retorno não é meramente cronológico, é um reencontro com a estrutura, e a estrutura, como bem sabemos, não é um lugar de repouso, mas de conflito, desejo e, por vezes, de um profundo mal-estar. Abordar este novo ciclo exige esperançar, que, como sempre pontuo: nada tem a ver com a espera passiva do otimismo ingênuo ou das fórmulas vazias de autoajuda, mas com a ação deliberada de construir o possível sobre o terreno do que parece impossível. Sob a lente psicanalítica, educar é uma das profissões impossíveis justamente porque lida com o resto, com o que escapa ao controle e com o inconsciente que atravessa a sala de aula.

Neste cenário de pés no chão, entendamos que o otimismo não é a máscara da felicidade forçada, mas a coragem de olhar para o mal-estar docente sem o desejo de eliminá-lo com paliativos marketeiros e blábláblás pedagógicos. É fundamental compreendermos que a nossa força reside em uma unidade que não seja meramente burocrática, mas uma transferência coletiva: é preciso reconhecer que o sofrimento de um professor não é uma falha individual ou incompetência, mas o reflexo de um sistema que frequentemente nos pede para sermos o suporte de uma falta que não é nossa.

Então, pés no chão, que é o nosso lugar de intervenção. Olhos atentos, pois o desejo é o que nos move. Menos dedos apontados e mais mãos estendidas, porque precisamos de apoio e união. O ‘começo’ do Brasil é apenas o lembrete de que a nossa travessia é contínua e que ninguém precisa (e nem deve) atravessar sozinho.❤️

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