Por que só dormir não está resolvendo o seu cansaço?

Por que só dormir não está resolvendo o seu cansaço?

Janeiro é o mês simbólico da "folha em branco", mas sabemos que a realidade docente raramente permite recomeços limpos. Seja você efetivo em férias, contratado aguardando a incerteza da designação ou gestor planejando o ano, este espaço é um convite para deslocarmos o olhar da produtividade para a subjetividade. Na educação, precisamos ser categóricos: saúde mental não é apenas ausência de patologia, é a capacidade ética e política de manter-se desejante em meio ao caos institucional.

Na escuta clínica, é recorrente o relato de que o corpo sai da escola, mas a escola não sai do corpo. Percebo que, para muitos, as férias operam apenas como uma suspensão física. Janeiro avança e um sintoma coletivo começa a aparecer. Muitos me relatam uma angústia difusa, uma incapacidade de relaxar plenamente. E a pergunta que ecoa no consultório e nas redes é a mesma: por que a segunda quinzena de janeiro já tem gosto de domingo à noite? A resposta é dura: porque saímos da escola, mas a escola insiste em não sair de nós.

Byung-Chul Han, ao descrever a Sociedade do Cansaço, aponta que nos tornamos carrascos de nós mesmos, internalizando uma cobrança que antes vinha de fora. Na docência, isso é devastador. Mesmo distantes da sala de aula carregamos para o travesseiro a culpa corrosiva da "improdutividade" ou o medo antecipado das demandas de 2026. O corpo para, mas o psiquismo continua batendo ponto.

É preciso compreender que o descanso fisiológico (dormir, viajar) não alcança a raiz desse esgotamento. Essa impossibilidade de desligamento ocorre porque o sono repousa a musculatura, mas o que repousa a "alma" é a elaboração. Freud ensinou que o trauma não elaborado condena o sujeito à repetição. Se o cansaço persiste mesmo quando você dorme, é sinal de que a exaustão não é falta de energia, é excesso de carga mental represada.

O repouso real exige um corte epistemológico e afetivo: precisamos conseguir nos desconectar da identidade “sacerdotal” – aquela que tudo suporta em nome da vocação – para reencontrar a identidade de "sujeitos".

Convido você a um exercício difícil, mas necessário: a escutar o seu próprio silêncio.

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