Ano letivo/2025 em análise (parte III): o desamparo do Estado, da sociedade e da família

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Hoje precisamos falar sobre solidão e desamparo. Há um provérbio que diz ser necessária uma aldeia inteira para educar uma criança. Mas, neste ano letivo, a sensação predominante foi de que a aldeia sumiu, desmoronou, e deixou o professor sozinho na clareira, segurando a mão da criança.
Enfrentamos o ano sob a sombra do abandono institucional. Do Estado, vimos a burocracia aumentar exponencialmente (plataformas, relatórios, índices) enquanto o investimento real na estrutura física e na valorização salarial minguava. A Constituição (Art. 205) é cristalina: a educação é "direito de todos e dever do Estado e da família". No entanto, no chão da escola esse dever tem recaído desproporcionalmente sobre os ombros docentes, criando um abismo entre a letra fria da lei e o sufoco da sala de aula superlotada.
A Psicanálise nos ajuda a ler esse fenômeno: a escola virou o ‘lugar do despejo’ das angústias e faltas familiares. Pais exaustos pela exploração do trabalho, desamparados ou omissos, acabam terceirizando não apenas o ensino, mas a criação moral, ética e afetiva. E quando o aluno falha, ou quando a violência social atravessa os muros da escola, a culpa, perversamente, retorna ao professor. Freud já classificava a educação como uma das profissões impossíveis, justamente por lidar com o desejo e a falta do outro, mas o que vivemos é a impossibilidade somada à solidão.
Além disso, em 2025 vimos a perigosa patologização da existência. Tudo é transtorno e laudo, numa tentativa desesperada de medicalizar o que é, na verdade, fruto da idade, da desigualdade, do desamparo familiar ou do tempo nas telas. Vimos as salas incharem com uma explosão de diagnósticos neurodivergentes, que chegam como sentenças, mas desacompanhados do suporte vital. O Estado matricula o laudo, mas esquece o aluno e abandona o professor. Chamam de ‘inclusão’, mas é ‘inserção desassistida’, uma violência pedagógica: colocam a criança atípica dentro da sala regular superlotada, sem mediadores, sem formação específica e estrutura, esperando que o docente faça o milagre da convivência e da aprendizagem.
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