Ano letivo/2025 em análise (parte I): a sociedade do cansaço e a somatização docente

Dezembro não é apenas uma folha que cai no calendário; para nós do chão da escola, nos variados e complexos Brasis, é o momento em que o corpo cobra a conta e a mente exige elaboração. Damos início hoje a uma jornada textual necessária: nas próximas semanas faremos deste espaço um divã coletivo e uma trincheira de reflexão. Vamos dissecar o ano letivo de 2025 sem romantismos tóxicos, encarando de frente o esgotamento, as belezas raras da docência e as falhas estruturais de um sistema que insiste em se sustentar sobre a nossa exaustão.
Precisamos começar falando do corpo, esse arquivo vivo das tensões escolares. O ano letivo não termina quando entregamos os diários, ele termina primeiro na gastrite nervosa, nas crises de ansiedade, na voz que falha, nas articulações que doem, nas noites insones e no esgotamento psicossocial. Chegamos ao fim deste ciclo com a sensação de termos corrido uma maratona sem linha de chegada. Não é apenas o cansaço do "fazer", mas o peso do "suportar". Suportamos a precarização, o barulho ensurdecedor, a falta de $, de recursos e a demanda emocional de tantos alunos, transformando nossa própria saúde em insumo básico para que a escola funcione.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, alerta sobre o excesso de positividade que nos leva à autoexploração. Na escola isso se traduz na cobrança perversa de sermos super-heróis: assistentes sociais, psicólogos, pais, burocratas, mediadores de conflito e, nas brechas do tempo, professores. Falo que o mal-estar docente não é frescura, é sintoma social; uma resposta somática de quem tenta segurar as paredes de uma instituição que a sociedade insiste em deixar ruir, enquanto somos bombardeados por discursos de gestão empresarial que exigem metas impossíveis em cenários frágeis.
Este esgotamento é também fruto de um trabalho invisível que invade nossas casas: o WhatsApp não para, o planejamento ocupa os domingos, as plataformas vigiam nossos passos e a fronteira entre o "eu-pessoa" e o "eu-professor" é diluída. É preciso ouvir o corpo docente, negar a exaustão é compactuar com a engrenagem que nos mói.
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