Não é só uma 'fase difícil'

A escola faz mais do que devia e sempre atuou onde estado e sociedade falharam. Mas, atualmente, a escola nunca teve tanta situação de criança e adolescente abandonados pelas famílias. A indolência e o desinteresse dos alunos pelos estudos nunca foram tão aterradores para os educadores. Crianças e adolescentes, em franco desenvolvimento físico e emocional passam os dias preocupados com qualquer outra coisa que não seja a escola, o conhecimento e a realidade. E embora apresentem descaso e rebeldia, os alunos estão vivendo sofrimentos pontuais que não conseguimos enxergar sem a lupa da empatia, da escuta e da paciência.
O grito abafado pelo ruído ensurdecedor da "fase mais feliz da vida" entrega a crueza do adolescer contemporâneo e volto a dizer: não é drama, é sintoma. Enquanto discursamos sobre rankings, notas e bandeirolas, uma epidemia silenciosa corrói a alma de nossos alunos. Tenho lido artigos nacionais e internacionais de cenários educacionais e a realidade discente, e os dados são frios. Enquanto a sala de aula ferve em ansiedade e angústia, as reuniões pedagógicas repetem pautas enfastiosas e omitem a relevância da saúde mental dos alunos e dos professores. Segundo a OMS, o suicídi0 é a 2ª maior causa de m0rte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil.
A escola que deveria ser um porto seguro, tornou-se para muitos, uma arena de julgamento implacável. A pressão por estética, status e desempenho, a violência do bullying digitalizado, a solidão em meio à multidão, a desesperança frente a um futuro incerto... todo esse caldo tóxico não gera apenas tristeza, mas também uma dor psíquica insuportável, onde professores e alunos padecem em absoluta solidão.
De um lado, medicalização, atestados e afastamentos; de outro, quando a dor não encontra palavras, ela acha ‘saídas’. A automutilaçã0 é para chamar certa atenção, mas não é um teatro. É uma linguagem desesperada de quem tenta traduzir uma angústia invisível em uma dor física, concreta e, pasmem, contornável. Na última década acompanhei adolescentes em contextos assim, tanto na escola, quanto na família, e entendi que este é o grito de socorro mais ‘raw’ que existe.
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