Sabedoria docente: estoicismo e sobrevivência (parte II)

Sobre Epiteto e em como felicidade e liberdade começam com a compreensão de que algumas coisas estão sob nosso controle e outras não. O nosso desgaste com aquilo que é imutável é uma violência contra nós mesmos e à medida que não respeitamos tal limitação, perdemos energia vital. É o exemplo de quando o som ou o projetor falham no meio da aula e que a raiva não conserta o equipamento, mas suga a nossa capacidade de ter uma solução criativa.
Aqui está um dos nós górdios da existência docente: gastamos reservas preciosas de paciência e sanidade lutando contra moinhos de vento materiais, humanos e institucionais. Enquanto o projetor pisca sua luz agonizante, o estoico docente já traça mentalmente o plano B (ou C ou D). E aqui considero importante dizer que, geralmente nós professores não achamos uma derrota acionar planos secundários, porque nem sempre vemos a falha como derrota; trabalhamos com adaptação o tempo todo e muitas vezes mudar o método é a nossa arte marcial frente as contingências e situações burocráticas.
Voltando aos estoicos! Sêneca, o estrategista do equilíbrio interior questionou a ansiedade e sua reflexão pode ecoar em várias situações, inclusive nas reuniões pedagógicas. Ele dizia: “Não sofras por antecipação”. Quantas horas perdemos ruminando conflitos futuros com pais intransigentes, alunos indolentes, planilhas absurdas, gestores abusivos, projetos sem sentido ou reformas curriculares caóticas? O estoicismo não pede passividade diante do absurdo, mas discernimento tático: investir fogo sagrado apenas onde ele pode, de fato, incendiar mudanças. Mas e o resto? Então, parece que é 'amor fati'. Aceitar o inescapável sem romantizá-lo, como a greve que não vinga, o wi-fi que capenga, o projeto que morre no papel e até a política pública de saúde mental que nunca chega às escolas para os educadores.
Assim que escrevo essas palavras eu já sinto angústia e revolta. Será mesmo que devemos aceitar o que não tem mudado, mas que pode mudar; ou devemos seguir esperançando, batalhando, reverberando o caos nas reuniões, nas greves, nos espaços de ensino e aprendizagem?
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