Do assédio ao óbito - parte II

Do assédio ao óbito - parte II

Paralelamente, assiste-se à imposição acrítica de plataformas digitais, vendidas como panaceias modernizantes e lançadas sem infraestrutura, formação docente ou qualquer consulta sobre sua real utilidade pedagógica. Longe de empoderar, tornam-se mais uma fonte de frustração, sobrecarga e mecanismo de controle e monitoramento sobre os docentes, sob o disfarce da tecnologia. Softwares fiscais plantonistas, que todo mês “é funcionário do mês”, entrega cada passo do usuário (Silvaneide morreu na escola em contexto semelhante).

Este cenário retrata uma política que desvaloriza a educação pública e os seus agentes. A lógica da produtividade esmaga a subjetividade e a relação humana que são a essência do ensinar e aprender. O discurso da meritocracia e da responsabilização individual do professor serve para ocultar falhas estruturais e as violências institucionais que permeiam o sistema.

A falsa promessa de inclusão e eficiência dessas plataformas, mascara a ampliação de desigualdades e desumanização do processo educativo. Estudantes sem acesso estável à internet ou dispositivos adequados são automaticamente excluídos, aprofundando o fosso social na vida real. Professores, já sobrecarregados, são transformados em meros operadores de sistemas, forçados a dedicar horas à navegação em interfaces complexas e à resolução de problemas técnicos, em detrimento do planejamento pedagógico reflexivo e do contato humano significativo.

Essa imposição reflete também a captura da educação pública pela lógica do mercado. As plataformas, desenvolvidas e geridas por corporações privadas, transformam dados educacionais em commodities e introduzem uma relação de consumo onde deveria haver construção de conhecimento. A padronização do ensino através de algoritmos e métricas de desempenho, ignora a singularidade dos contextos escolares e das trajetórias de vida, reduzindo a complexidade do aprender a indicadores quantificáveis. O foco desloca-se da formação crítica e cidadã para o treinamento de habilidades técnicas e a adaptação passiva a sistemas externos, reforçando hierarquias e alienando tanto docentes quanto discentes do sentido profundo da educação.

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